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domingo, 24 de julho de 2011

sobre amy, artaud e van gogh.

Jornalistas afirmam não saber com precisão a causa da morte de Amy Winehouse, que aos vinte e sete anos se foi, deixando pra trás uma curta trajetória permeada por vícios tão arrebatadores quanto o seu talento. Apesar de a esmagadora maioria das pessoas levantar óbvias suspeitas sobre a ocorrência de uma overdose fatal, eu, do alto de minha ignorância me permito discordar de tal opinião. São evidentes na própria fisionomia da artista a degradação causada pelo abuso de drogas, porém, ouso afirmar que a causa-mortem de Amy Winehouse foi outra.
Há pouco lia um texto/ensaio do multipoeta Antonin Artaud, sobre Van Gogh. o título, que elucida bem a tese cental do texto é "Van Gogh, O Suicidado Pela Sociedade". Durante os pequenos parágrafos que se seguem, nunca respeitando métodos racionais de argumentação ou construção textual, ao melhor estilo demolidor e surrealista de Artaud, ele discorre sobre a personalidade do pintor holandês, sobretudo seus aspectos mais introspectivos e antissociais. De acordo com ele, Van Gogh era antissocial não apenas no âmbito da timidez ou de uma suposta misantropia, mas sua "anti-socialidade" se referia mais à uma incapacidade de se adaptar à sociedade e seus códigos e costumes.
A partir dessa reflexão, o autor francês adota a perspectiva, segundo a qual Van Gogh não representou - apesar de ter cortado a orelha esquerda e assado uma das mãos - traço algum de insanidade mental. Segundo Artaud, a problemática não estava no desajuste social do pintor, mas na sociedade, que - esta sim, era doente. Van Gogh foi homem lúcido, capaz de modificar os paradigmas da sociedade através de uma revolução pictórica, que entretanto, deveria ser deascreditado pelas autoridades e formadores de opinião, pois sua genialidade contrariava os interesses do establishment europeu.
Vejam bem, não procuro aqui analisar ou discutir a sanidade mental de um dos maiores artistas da história da humanidade, mas justificar, através da perspectiva do autor, um pensamento que me veio à mente no último sábado, ao saber da morte da cantora Amy Winehouse.
Seria óbvio dizer que tal morte já havia sido anunciada, e tampouco cabe a mim julgar os rumos que qualquer um dá à sua vida (ou aos caminhos que somos conduzidos sem que ao menos possamos nos libertar). Porém, ao me deparar com a imensidão de comentários, muitas vezes mal-fundamentados e sensacionalistas sobre tal morte, me senti no direito de tentar realizar minhas próprias especulações sobre o fato de forma não tão leviana quanto tenho ouvido durante todos o tempo em jornais, tablóides e até mesmo da boca do povo, nesses poucos anos durante os quais acompanhei a carreira da jovem cantora inglesa.
Assim como Artaud, creio que o maior problema, talvez o catalisador do processo de auto-destruição de Amy, não tenha sido a sua dependência em si, porém o circo que se formou em torno do mesmo. De cantora talentosa, ela passou a motivo de piada e fonte inesgotável de lucros para a indústria de tablóides, tão popular e poderosa, quanto cruel na terra da rainha. A morte e via-crúcis da cantora foram, como a de tantas outras personagens célebres, sintomas decorrentes da doença de uma sociedade que constrói deuses com prazos de validade. Eu compreendo bem a liberdade de imprensa, e acima de tudo, compreendo que tal liberdade não significa onipotência ou tirania. É inaceitável que construam se mitos de forma irresponsável e, na estação seguinte, os demonizem. É inaceitável que isso seja feito com as vidas dessas pessoas e sacramentado por formadores de opinião que influenciam pessoas em todo o mundo.
Como já havia dito antes, não isento Amy de sua responsabilidade para com a sua vida e sua liberdade de escolha quanto ao rumo da mesma, porém, creio que um problema tão grave quanto a dependência química não deva ser tratado de forma tão leviana e circense, e que pessoas não devam ser tratadas como produtos. Cabe à imprensa tratar da obra de um artista, não perseguí-lo e expôr sua vida de forma irresponsável. Parafraseando Artaud, afirmo que Amy não morreu em decorrência de overdose, e sim, foi suicidada pela sociedade. Uma sociedade viciada no consumo em fast-food de sensações e pessoas, que nada pode esperar, senão talentos fugazes e produtos medíocres de entretenimento, entre raras exceções.

"e repito,
um mundo que, cada vez mais, noite e dia, come o
incomível para fazer sua maléfica vontade alcançar seus objetivos
não tem outra alternativa nessa questão
a não ser calar a boca."

(Antonin Artaud - Van Gogh, O Suicidado Pela Sociedade)

2 observações:

  1. Nossa, falou tudo. as pessoas tratam os artistas quase como "não-humanos", se não estão perfeitos em um show, são vaiados e devem agir bem em resposta a isso, senão, são mais vaiados ainda... devem ser perfeitas máquinas, que nunca perdem o equilibrio e estão sempre bem dispostas e belas. A Amy estava em uma época tão dificil, e o que as pessoas faziam era vaia-la, demoniza-la, expor sua vida e suas dificuldades. Mas quase ninguém para pra se colocar no lugar da pessoa, só vê o superficial, "ah era uma drogada que acabou com a própria vida". Ela foi suicidada pela sociedade, assim como ocorreu com tantos outros artistas, lamentável...

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  2. Artur Dapieve fez o mesmo paralelo no globo de hj, só q usando uma obra diferente do Artaud (uma sobre o ópio, e talz). Lembrei logo do seu texto!
    Tá ficando complicado essa coisa de ter blog qndo a gente tem uma boa idéia rsrsrsrsrs ;b

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