o grande dilema de nossa linguagem é sua limitação. não estou aqui falando de um dilema específico, mas do conjunto de caracteres e vocabulários como um todo... tudo o que temos são conjuntos de metáforas que se apóiam em metáforas: mas como atingir o significado em si? primeiro: será que existe significado em si ou as coisas são o que são, são como se mostram? segundo: será que não há forma alguma de alcançar o em si e devemos simplesmente suspender essa dúvida, mas ainda assim persistir na empreitada justamente por seu caráter inalcançável?
ainda assim acho que o sugerir estabelece aqui seu valor. talvez a linguagem, o vocabulário, as determinações gramaticais valham menos do que a capacidade do subentendido: das entrelhinhas. quando enuncio uma certa frase, posso me apoiar em pequenos símbolos que deixam o significado suspenso no ar. cabe a quem ler captar esse significado suspenso, ou simplesmente criar um significado novo a partir dele. talvez o grande escritor seja aquele capaz de criar esses símbolos e não supor um significado reificado, mas deixar a critério de quem lê a constituição hermenêutica... o Camus assim define o Kafka, Virgia Woolf assim define Jane Austen, eu assim não defino nada, só suponho, só deixo pra vocês grandes conjuntos de "talvez" para que possam por si, através de minhas sugestões, através de meu subentendido, entenderem-se...
E assim somos nós, escritores, heterônimos de si mesmo e semeadores de sementes cujas árvores desconhecemos.
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