"I walked the streets of love and they're full of tears"
um homem manchado de nanquim e café me espera na esquina. manchada de lágrimas, ajeito os fios que insistem em fugir detrás das orelhas
- quartéis generais de minha profundissíssima insegurança.
vejo o homem que cheira a café de costas, na esquina. ele conta seus trocados, me oferece um cigarro, como se a fumaça pudesse tirar seu gosto incipiente, preso ao fundo dos meus mais longínquos dentes.
aqueles que nem eu lembrava ter.
seu amor por mim fora sempre um dente, prestes a cair, pendendo à gengiva por meses.
meu amor pelo homem dos dedos de nanquim era um ciso de lua nascente.
nunca vi passarem tantos transeúntes por aquela rua, talvez fossem todos meros símbolos de minha covardia cheia de pernas, tropeçando pelas "ruas do amor" - como diriam os stones em uma de suas mais tristes canções.
ele tinha as costas curvadas, as costas dos culpados. duas fileiras de vértebras exaustas. trapézios inflamados de culpa.
usava uma camisa branca de abotoar, mas isso eu só fui perceber tempos depois
naquele momento eu era só pulsação oscilante tentando me equilibrar sobre o salto e levar as mãos ao alto, pra depois poder abrí-las sem vacilar,
riscando os paralelepípedos pra atingir enfim, o intransponível meio-fio do adeus
e seguir avenida adiante,
costurando os retalhos do meu peito, meu orgulho em farrapos.
pra poder pintar meu coração em outras tintas pelas paredes da cidade.
Minha mãe diz que sabemos quando os versos são bons se os enxergamos de olhos fechados e os ouvimos no silêncio. Penso que com a prosa também é assim. E foi assim agora, comigo.
ResponderExcluirTambém adorei os detalhes (nanguim, camisa, a analogia com o dente)!
"seu amor por mim fora sempre um dente, prestes a cair, pendendo à gengiva por meses."
ResponderExcluirlindo.