Ladies

Pra ser pontual

argh (3) bla (13) bla. (15) citação (3) conto (32) crítica (5) diário (10) débil (9) espanhol (1) etc (1) filmes (1) filosofia (2) fotografia (1) imagem (1) inglês (1) joyce (1) letras (2) madrugada. (1) mari (50) mel (141) mel. (4) memória coletiva (1) mudança (1) música (4) poema (99) poema. (2) prosa (18) que? (2) resenha (2) sóbrio (2) trechos (4) vídeos (3) what? (5)

terça-feira, 8 de março de 2011

De morte matada

Passar tardes lendo Borges de fato refletiu no texto seguinte. Já cansei de recomendar a leitura deste autor Argentino por ai, basta procurarem narrativas como "As Ruínas Circulares" ou "A forma da espada" para saber como Borges brinca constantemente com o conceito de 'narrador'. O texto abaixo surgiu por acaso, mas quem já conhece vai reparar nas suas influências. Seja na temática, seja na estrutura.

p.s.: lembrar aos leitores de não levar o abaixo texto a sério.

-------

É preciso separar as roupas que se usa em casa, das roupas que vestiremos na rua. Cada uma tem suas especificidades, é claro, vão variar de acordo com o ambiente que se encontra. Há quem diga que quem assume novas 'roupagens' em diferentes ambientes metamorfoseia o tempo todo e o que vale é um estado fixo... Discorda-se da existência de um estado fixo, seja no âmbito biológico da coisa, seja no âmbito metafísico. É um estado quase impossível de se sustentar. A narração que segue abaixo trata dessas pequenas metamorfoses que rodeiam um homem simples e que rodeiam a todos nós.

Em certo sentido não direi que conheço profundamente o dito-cujo... Digo que as vezes em que o avistei (e sabe lá Deus se ele me avistou) foram suficientes para que eu o criasse em minha própria mente. Depois da terceira vez  de encontro sem falas, eu já sabia descrever como era sua voz, o que gostava de fazer aos domingos, ou se de fato acordava cedo aos domingos para ler jornal e tecer reclamações de sempre. O que quero propor é que eu o criei fixo em minha própria cabeça, eu o moldei com massa feita de expectativas. E quem será petulante ao ponto de sugerir que a minha criação pessoal é produto de loucuras, valendo menos do que a criação que ele criou para si mesmo e apresenta a outros? Por que se está restrita a um território mental ela tem menos valor? Todos os outros estavam restritos ao "terreno", não vejo em qual ponto esta seria mais ou menos verdadeira. E, falando em criações, praticamente tudo por aí funciona a base delas...

O fato é que depois de anos cultivando-o e vivendo-o eu precisei matá-lo. Não foi uma tarefa simples, afinal precisei arrancar desde as raízes moldadas pelo tempo... E também me reeduquei, obviamente, já que muitas atitudes eram governadas por sua presença que era só minha. Agora já estou livre e descoisificada... Vez ou outra eu vejo um sujeito com seu mesmo nome andando na rua. Sorrio, porque assumo a mim mesma que aquela não é a minha criação... Talvez apenas sua matéria-prima, seu esboço. Aquele que avisto é outra pessoa, é quase um estranho. Quem eu criei outrora, já há muito, eu mesma havia matado.

Alguém poderia dizer que escrevendo este texto eu o estaria revivendo. Errado: este texto foi a maneira que encontrei para matá-lo. Agora, passo sua memória a todos estes que o lerão e compartilharão sua lembrança. Eu, finalmente, o reencorpei em forma de texto. A maneira mais eficaz de livrar-me enfim dele.

2 observações:

  1. Texto de "gente grande", muito bom!!! Amei.

    ResponderExcluir
  2. As palavras faladas entram nos ouvidos. As palavras escritas ficam encravadas na alma. E, depois que escrevemos, elas já não são nossas.

    Isso que senti aqui, novamente. Como a Mari disse, texto de gente grande!

    ResponderExcluir