A lua estava triste. Arcanjos sonhadores
Em pranto, o arco nas mãos, no sossego das flores
Aéreas, vinham tirar de evanescentes violas
Alvos ais resvalando entre o azul das corolas.
— Era o dia feliz do teu primeiro beijo.
Para me torturar, meu sonho, meu desejo
Embriagavam-se bem do perfume de queixa
Que mesmo sem remorso e sem motivo deixa,
No coração que o colhe, a colheita de um sonho.
Eu ia à toa, o olhar no chão velho e tristonho,
Quando, trazendo nos cabelos um sol lindo,
Na alameda e na tarde apareceste rindo.
E eu julguei ver, com seu chapéu de luz, a fada
Que nos meus sonos bons de criança mimada
Sempre deixou nevar dentre as mãos mal fechadas
Punhados celestiais de estrelas perfumadas.
"Aparição", de Stéphane Mallarmé (1842-1898)
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Minha "Aparição"
no poema há duas faces:
forma e conteúdo
há poemas que se bastam em forma e falo
aqui dos digníssimos tolos parnasianos
há poemas que se encerram apenas em conteúdo
nestes se conserva ainda alguma beleza que o valha
há poemas, no entanto
que mesclam forma e conteúdo de maneira divina
e que valem o momento em que são proferidos
na verdade, poderiam ser proferidos pela eternidade
por seu casamento perfeito
pois seu deleite transcende
é o caso de "aparição", de mallarmé
que me domou intensamente essa madrugada
que me domou eternamente...
Os melhores sempre morrem cedo... 50 anos não dá nem pra preencher a carência de bons poemas como este...
ResponderExcluirSempre que leio Mallarmé lembro-me de minha professora da faculdade... Além do fato de tê-lo conhecido através dela, ela e a poesia dele às vezes se parecem bastante.
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