Ladies

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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Recado a Milan Kundera


Lendo “A insustentável leveza do ser”, um ponto em especial tem me irritado freqüentemente. Será que Kundera não poderia, por um capítulo sequer, parar de entregar todos os pontos tão facilmente? Seu livro é cheio de profundidade, mas o autor parece insistir em nos explicar detalhadamente todas as metáforas, todos os simbolismos, dissipando o encanto proporcionado pela leitura de uma boa obra. A narrativa parece agora cair no óbvio, e as relações com o passado dos personagens, cada vez mais forçadas. Boa história, boa construção, linguagem competente. Obviedade dispensável, lamentavelmente.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Ainda

Em janeiro, se bem me lembro, saímos para comprar uma agenda. Fiz questão de escolher uma que fosse limpa: sem linhas, sem desenhos tolos, apenas liberdade para rabiscar e gravar pensamentos. Passei o resto de meus dias, até o novo janeiro, sem ter contato algum com sua figura, no máximo com suas palavras, que pareciam sempre tão frias. Essa gelidez foi o motivo de minha desistência.  Como disse, chegou-se um novo janeiro. Por obra do acaso, tive-me com sua figura, e por um acaso maior ainda, a agenda se fazia presente em nosso encontro. Puxei o pequeno livreto da bolsa e folheei. Li alguns trechos e ri de mim mesma, sempre odiando esse eu passado que parece sempre passar para dizer oi. E aí você pediu que colocasse a agenda em suas mãos, para que pudesse ler por si próprio. Olhei bem em seus olhos e neguei com veemência. Fechei o livro de mim mesma à sua leitura, sem ter muita noção da auto-proteção que exercia. Proibi-lhe de me ler, de descobrir tudo que há de novo em mim. Ali eu viria pronta, feito comida congelada: você só precisaria esforçar um pouco a mente para descobrir-me nova. Talvez seja uma releitura da velha necessidade de fazer-me nova a seus olhos, para que se apaixone mais. Talvez seja, como já reforcei, tentativa de auto-proteção diante dos traumas que nos submetemos. Vai ver também não é nada, só um ato vazio de significados, de fechar um livro de memórias tolo, sem essa confusão de pensamentos que criei em mim mesma para forçar uma metáfora que fosse aparentemente bonita e que rendesse textos minimamente poéticos. Vai ver só escrevi isso para que em algum momento, quem sabe, esporadicamente, você passasse por aqui e tivesse a oportunidade de ler e saber que não me esqueci. E que momentos assim continuarão guardados nalgum lugar de mim que desconheço por muito tempo, ainda.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

??

CPF, Identidade, Número da chamada, número de inscrição, CEP, Número da casa , Nota , Telefone, Idade, senha, número do cartão, quanto dinheiro você tem na carteira?, Quantos namorados?, Quantos ex-namorados?, quantas viagens?, Quantas faculdades?, Quantos amigos no Orkut/facebook?, Quantos seguidores no twitter?, quantos livros?, Quanto é 2 + 2?, quantas horas, quanto você ganha por mês?, qual o custo desse vestido?, desse celular?, qual o custo do libido?, quantas casas você tem?, quantos quartos tem sua casa?, quantos cachorros, quantos amores, quantos talheres, quantos ventiladores, quantos computadores, quanta palhaçada, quantos rótulos, quanta matemática...


E você ainda tem dúvida de que é um número?

reflexão de banheiro público


Curioso é perceber o poder de uma pequena escolha. Suas projeções para o futuro, suas infinitas possibilidades de arrumação (Efeito borboleta?). Esse ano precisei fazer muitas delas, mudando de opinião muitas vezes, inclusive. Se agora tenho certeza de que escolhi a melhor dentre elas? Não, apenas escolhi, e esse é o ponto mais sacana da vida. Não há base de comparação para sabermos se foi a melhor decisão. Apenas sabemos que foi, e esperaremos para saber no que implicará. A grande chave talvez seja se arrepender menos. Ou perceber que ainda há chance de mudar com novas escolhas no caso de uma insatisfação, por mais tortuoso que tenha sido o caminho ou por mais radical que possa se tornar uma nova mudança. Mudar nunca é fácil, acho que sempre é doloroso. Mas mudar é apenas mudar, sem dicotomias, sem certo ou errado, sem melhor nem pior. Mudar e fazer escolhas são o que são em suas pequeninas, sacanas e distintas essências.

bacharel

Oficialmente formada pelo Colégio Pedro II. Agora faço parte do seleto grupo com o título de 'Bacharel em Ciências e Letras'. O título, tal qual a Bastilha, funciona como grande símbolo de uma grande transição. O orgulho não é por ser um belo nome que enfeiterá o currículo. É um belo nome que sintetiza todos os maravilhosos últimos três anos passados na instituição. Não quero aqui gastar meu vocabulário, isso já foi feito em demasia na cerimônia da última noite. Mas como o título de bacharel, queria que este post servisse como emblema, como símbolo, para que eu possa olhá-lo mais vezes e trazer a mente lembranças calorosas dos últimos calorosos e magníficos 3 anos. Obrigada a vocês que proporcionaram isso.

domingo, 12 de dezembro de 2010

2h30min

Sim, eu estou aqui às exatas 2h13min de uma madrugada fresca e silenciosa escrevendo sobre cotidianos estéreis (viciei nessa expressão), até que resolvo puxar um livro do Kerouac na estante, e eis que me deparo com as seguintes palavras:


"... a história que é contada por nenhum outro motivo a não ser companheirismo, que é outra definição (e a minha favorita) de literatura, a história que é contada pelo companheirismo e para ensinar algo religioso, ou reverência religiosa, sobre a vida real, nesse mundo real que a literatura deveria refletir (e aqui o faz).


     Em outras palavras, e depois disso vou calar a boca, histórias e romances invetados sobre o que aconteceria SE são para crianças e adultos cretinos que têm medo de ler sobre si mesmos em um livro assim como teriam medo de olhar no espelho quando estivessem doentes ou feridos ou de ressaca ou insanos. "


Satori em Pariz, Jack Kerouac.


Das duas, uma: ou as coincidências entre minhas idéias e os textos estão cada vez mais evidentes e se aflorando aleatoriamente (eu que não havia prestado atenção antes), ou realmente estou doida e cheia de sono, o que faz com que enxergue links aparentes entre os textos, quando na verdade não há relação direta/ razoável alguma!


E pra finalizar, trecho de um filme que adoro e não preciso falar que é recomendadíssimo:
(infelizmente não achei o vídeo legendado!)


Ah, e o nome do filme é "Waking Life".

Desde então


Desde então, todas as noites
Ela o obriga a dividir a cama
Para que juntos, possam curar a solidão que sua
Ida deixou nos corações de ambos.
E cada vez mais eu escrevo
Marginalizando meus próprios textos
Subversivos demais até para mim mesmo
Escondendo em gavetas obscuras em cantos
Quadráticos da casa
Em paredes em janelas
(textos surgem quando você assopra o vidro)
Sigo escondendo as palavras de mim mesmo porque
Elas ferem
Sigo escrevendo sem reler e sem publicar
Não sou eu ali?
Um texto existe somente no momento em que é escrito
E depois lido
Depois, de cada palavra tola eu preciso instantaneamente
Livrar-me
Do peso horroroso que é contemplar cada mísera parte podre
De mim mesma em palavras... 
eternizadas e escancaradas
e sem final.


(pela terceira vez, quase desisti de publicar)

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Continuação...

XI - Deixa o verão pra mais tarde


Eu passo os dias procrastinando e prometendo coisas a mim mesma para depois ver-me cheia de tarefas não cumpridas. Chego a casa e logo penso em capotar na cama, nem almoço eu faço, nem livro eu consigo ler. Se acordo depois de capotar, levanto os olhos ao teto ocre e vazio do quarto e penso na minha infinidade de possibilidades, na minha tão igualmente infinita indisposição. Alguém surge de repente como que objetivando desestruturar essa minha pseudo-paz de espírito, mas não consigo entender sua fala... Esse calor aos poucos vai torrando minha pele, vai torrando meu cabelo, vai torrando meus neurônios. Estou perdida dentro de mim mesma, com o mundo interiorizado, nada que vocês digam faz mais sentido aqui dentro. Só queria algumas semanas pra poder simplesmente me dar o direito de não fazer NADA.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Impressões sobre uma realidade débil


IV - Zunido

Andar por estas calçadas febris sem fones de ouvido tem sido a maior tortura, superando o odor do cigarro, a luta pelo silêncio, o desejo forte por seu colo. E se hoje ataca uma dor de cabeça visceral, se hoje minha coluna parece se entortar a cada pernoitada neste colchão estéril, se meus pés já não agüentam o peso de meu corpo, exibindo aos poucos seus ossos à atmosfera, toda essa dor física e psicológica é atenuada pela abstinência de sons. Dizem que sem música a vida seria um erro. E é.