Ladies

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quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Pelo ano inteiro

Um pouco de expectativas para 2010, sem tentar parecer muito piegas ou direta...


Pelo ano inteiro

A chuva tem caído esses dias
Fina e constante,
Carregando muitas dores, além
De meus fios de cabelo
Esvoaçantes.
Quero que em Janeiro eu
Saiba distinguir
O que é fútil, o que é paixão
Do que pode se tornar
Amor verdadeiro.
E que, em um segundo apenas
Eu contemple seu rosto e lhe diga
“é você que eu quero
pelo ano inteiro”.

sábado, 26 de dezembro de 2009

chico on the rocks.


Degustava sua dor. A cada gota do uísque amargo que sua saliva ácida absorvia, como fazia a pele morena com suas poucas lágrimas. Pétreas lágrimas, fruto do sacrifício das glândulas lacrimais em esconder, quando da saída de cada uma delas, a dor. Os impostos sobre a mesa de café o chamavam, a mulher em sua pia o chamava, o jardim e sua grama alta o chamavam, a criança em seu cercado o chamava.
Ele tampouco se movia. Sólido, firme, como deveria ser um bom pai de família. Assim o ensinaram, assim lhe foi dito, tanto pelos pais, quanto pela escola, e agora, tudo a sua volta parecia exigir seu oposto.
A mulher em sua pia perguntava-se para onde fora o carinho dos tempos de namoro, a criança perguntava a si mesma, em inocência, quem seria aquele deus imponente e imóvel na poltrona da sala de estar, a grama crescia sem rédeas, conforme o homem da casa sentia o enfado da rotina crescer, em silêncio. Ele ouvia todos aqueles ruídos, em sua dolorosa sinfonia muda, enquanto toda a sensibilidade engolida a seco lhe retornava pelo estômago em um árduo e lento vômito.
A tarde pela janela lhe sorria rosada e bela, mas ainda assim, o homem não ousava se mover de sua poltrona azul entre as cobranças da sociedade patriarcal e os jornais do dia anterior. O copo de uísque suportaria, redondo e transparente,seu incômodo, entre o suor das pedras de gelo.
Pelo rádio à pilha, Chico dizia: "...apesar de você/ amanhã há de ser/ outro dia..." E o amanhã raiou. Em vazio e asia em sua poltrona azul.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

As Estações

Na cama restavam apenas os destroços da noite anterior: um vestido, uma taça de vinho, um Baudelaire adquirido a baixo custo...
O corpo da moça acompanhava a cena imóvel, pálido, olhos fixos em lugar algum! Pois era só nesse ambiente místico que era capaz de se encontrar.
Um telefone, apenas, seria suficiente para avisar a família. Qual família, se a biológica havia há muito rejeitado sua essência para morrer em desgosto profundo e a família que cabe à escolha própria no mundo preferiu amar seu doce estoque de vinho?
A mais provável seqüência pode ser pincelada com os rostos assustados, desfigurados, fingindo piedade, de seus vizinhos. A casa começaria a gritar o acidente, e o odor transcendente alcançaria insuportáveis melodias.
Diz-se que a primavera veio e com seu perfume exalou a felicidade, maior que o cheiro incontrolável do infortúnio.
Diz-se que o verão, com seus raios cortantes e intensos, secou sem piedade qualquer resquício, qualquer lágrima de saudade que pudesse surgiu dos olhos saudosos de seus parceiros alcoólicos.
Diz-se que o outono expeliu folhas sem vida, tal qual a moça, pelo jardim. E que o vento transportava-as sabe-se lá com qual destino e intuito, num coro mais audível que os lamentos da mansão. Se ao menos o vento possuísse o poder de arrastar os corpos...
Até que, enfim, no silencioso e inodoro inverno, pássaros de todas as espécies habitaram o quarto. Havia rouxinóis cantarolando e bem-te-vis assobiando, coisa que tranqüilizava e proporcionava certa dose de paz ao recinto.
- Olha, mamãe! É a nossa vizinha flutuando!
E, veja só que cena mais surpreendente! Os pássaros reuniram-se em patas e bicos, cada qual com suas limitações, para levar a moça em direção a diferentes estações. A mão rapidamente puxou o braço da criança, sem nem ao menos olhar, já negando suas visões. Pobre mãe e mão descrentes, jamais serão capazes de observar com calma as estações diferentes, só dignas de almas puras e não vivas, de almas urgentes.


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Um pequeno espaço aqui, quase imperceptível, para que eu possa demonstrar minha alegria urgente de ter conseguido escrever: !!!

domingo, 20 de dezembro de 2009

Retorno com poemas antigos

Enquanto eu não consigo produzir nada novo, posto aqui alguns textos perdidos em documentos .doc... Estranho, jurava que havia datado corretamente cada um dos textos, mas pelo visto somente um destes abaixo possuía os devidos marcadores temporais. De qualquer forma, creio que escrevi estes durante o início/meio de novembro. Aproveitem, e espero conseguir voltar a escrever logo!



Um Borrão

Eu vago entre as paralelas
E espero que elas me indiquem
A direção.
Eu torço para que não encontre
Qualquer rosto conhecido
E quando falo com outros
Os olhos contemplam o chão.
Olhos
Espelhos da alma?
Mas que alma cabisbaixa
Faz de um reflexo
Um borrão.


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"While this town is busy sleeping"

Eu não quero me enganar
É difícil me acostumar sabes
Que creio que ainda verei
Seu rosto no final de semana
Sua barba mal feita
E seu cabelo que eu insistirei
No corte...
Sem termos lugar algum a
Visitar
Pois já desbravamos todos
Os cantos
Já desbravamos até mesmo
Nossos corações, que de tanto
Receber visitas constantes estão
Desgastados, aliviados com a
Distância combinada até então.
Você hoje vai se divertir
Mas eu
Eu vou ficar aqui.
Enquanto a cidade toda está
Ocupada em dormir
Eu me preocupo em discutir
Com as suas cartas
E implorar, sucumbir
Que seu amor volte
Que você simplesmente se
Importe.

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Desisti?


Você ma abraça e faz
Meu corpo arder mais que
O sol fez esse domingo.
Você insiste na sentença de
Que seu coração despedaça
Ao som de minha voz fraca e
Entrecortada. E eu já não consigo
Mais entender as verdades
Provenientes de você.
E eu já não posso mais prever
suas decisões e novidades.
Devo te procurar?
Devo continuar escrevendo cartas que
Talvez tenham o efeito reverso do
Pretendido?
Acabo decidindo por deitar a cabeça
Num travesseiro de coração e alma
Abertos para receber minhas dores
Como os senhores do ônibus
Que cuidaram de mim quando
Eu sucumbi.
Eu sumi, será que eu
Também, enfim,
desisti?

domingo, 13 de dezembro de 2009

a noiva.

(Pra quem tiver paciência de ler até o fim.)

As ruas e suas esquinas rígidas tomavam seu corpo moreno em exaustão e suor. A chuva, promessa de outrora, cessando se ia, abstrata por entre as nuvens agora parcas no céu de novembro. Seus pés em veludo vermelho sobre o chão cinza ardente, seus pés de mulher balzaquiana e cansada. A renda preta denunciava o quanto clamava aquela mulher por amor. Não um amor barato de sabonete de motel de estrada, isso ela poderia encontrar no bar da próxima quadra da Presidente Vargas. Ela queria casar.
O tempo impiedoso lançava talhos por sua face, conforme os homens que por sua cama passavam e lhe deixavam apenas lençóis sujos e esquecimento. Mas ela sonhava, em seu balcão de funcionária pública. Ela fazia enxovais em seus papéis de burocrata, pra depois deitar ao lixo junto aos muitos cigarros e calmantes que tomava pra dormir com o travesseiro vazio ao lado.
A solidão doía, nas faces maquiadas e decadentes de suas colegas de trabalho, em seus filhos já criados, em seus divórcios lucrativos. O chope da sexta havia se tornado há algum tempo apenas uma desculpa pra afogar as mágoas em público sem que aquilo parecesse um indício estúpido de fraqueza.
A sexta inteira era um calvário, com suas horas pesadas. O batom vermelho, o perfume barato, o mesmo bar de sempre e os mesmos homens a fitar suas pernas ainda roliças. A via-crúcis se findava na cama, com travesseiros separados, o maço óbvio de Marlboro e as roupas íntimas abandonadas sobre o piso frio. Ela queria casar.
Do outro lado da faixa de pedestres reluzia um vestido branco e límpido. Seus bordados pareciam banhar todo o seu corpo no conforto e segurança de um casamento com um homem bom, em um domingo na praia, em uma pia cheia de louça.
O sinal abriu e seus pés seguiram faixa a faixa, enquanto a certeza de que seu destino era próximo a tomava com a fé cega de um louco. O vestido era o futuro a abrir suas portas de mogno, o vestido, o sol e os pingos do ar-condicionado.
Ao entrar na loja em seu delírio de mulher amada, despiu o manequim sem cerimônia, tomou-o para si. O tecido quente aderiu a seu corpo como uma crisálida a uma lagarta - ela já não sentia o calor do centro do Rio, ela já não percebia mais os transeúntes nem tampouco seu vazio. As buzinas e apitos na avenida soavam a seus ouvidos em delírio como a tão esperada marcha nupcial.Havia chegado o dia. Como se a felicidade houvesse lhe tomado de assalto como uma doença irreversível, banhando-a em torpor e insanidade, vagava pelas ruas em sua sinfonia bêbada a procura de um para sua dança matrimonial.
Diz-se entre dentes nas salas cinzas do funcionalismo público, que a moça triste surtou, e agora anda pelas ruas do centro em seu vestido esfarrapado como mendiga em transe, implorando por amor.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Amor remanescente

Olhei as fotos alheias,
as declarações veraneias
E senti imensa inveja
De tamanha festa
Pois a minha, ó céus,
Terminou há pouco!
E quanto mais perto do fim se
Está, mas sente-se a dor do
passado recente.
E mais atordoado sinto-me
Ao ver fotos adoráveis de
outrem. Parece que nos
roubaram o amor para
fazer crescer o próprio!
Como puderam pecar
tão horrendamente?
Quão bonito era...
Roubado inocentemente
Pescado, no ar
por amantes maduros
Arrancaram o amor de nossos
peitos ardentes para encher os seus,
velas incandescentes, frutos
maduros, mas que apodrecerão
Com chuvas e tempestades tortuosas
e secarão no ardente sol
Para depois compartilhar
Largar o amor pelo ar!
E, aí sim, nós poderemos pescar
de volta, e recolocar no peito
nosso sentimento ardente.
E recomeçar. Velas
incandescentes. Frutos maduros,
amor novo e crescente.
Amor remanescente.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Crisálida

Preparei tudo com muita delicadeza para a chegada do fatídico dia. Quantos momentos desperdicei pensando em tudo que me falastes, quantas horas foram alimento para dor e sofrimento, quanta teoria transformada em lágrima! Tudo isso para que, como conseqüência inevitável, a paixão voltasse.
Transformei-me feito lagarta em borboleta. Talvez não tão naturalmente quanto à última, mas de uma forma que fez bem ao espírito. Cobri de asas coloridas meu corpo, e tornei-me bela ao externo e dona de sábias palavras e idéias. Do jeito que havíamos combinado fazia alguns meses...
Não sabia ao certo o que iria enfrentar. Algo me dizia que estava plenamente preparada. Organizei todos os pensamentos, revisei cada momento em busca de pequenos detalhes que pudessem ser decisivos para minha metamorfose, para me converter num ser que pudesse ser amado por aquele ser a quem se devia tanto sentimento.
Saí de casa quase flutuando nos sapatos novos, e lembro-me bem que fui até metade do caminho. Subitamente, sem motivo aparente, sem dor ou afetação, fiz o caminho de volta.
Retornei a casa com muito mais alegria do que àquela na qual fingi ter sentido durante todo esse percurso. Destruí com canivetes e objetos pontudos e dolorosos meu pequeno castelinho forçoso de mudanças, com um ímpeto monstruoso de quem ficou presa durante séculos. Precisava de alguém que me amasse pelos defeitos, pensei, e não por minhas qualidades subseqüentes. E assim fui seguindo, sobrevivendo só, e só de um parco amor reciclado.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Ao caminhar

As férias me encaram e busco nelas uma certa estabilidade. Assistir um filme por dia, continuar na empreitada da escrita e leitura assídua... ! As ideias finalmente encontraram local tenro para repousar, mas isso não significa que este tal espaço dure eternamente, sem necessitar outrora de uma substituição para novas atmosferas. Por enquanto, algo que rabisquei essa semana, que me presenteou com águas celestes, não que o poema seja um regalo tão magnífico feito o último...

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Ao caminhar

Satisfaço-me agora
com sua amizade,
seu doce amigo.
Mas peço a senhora
que ainda me dê abrigo
no coração.
Quero estadia eterna
quero casa, comida e vela
Junto com a condição de ser
uma constante em você
Seu amigo mais terno
Conceda-me o mistério
De desvendar seu critério
De recriar nossa alegria
Aos poucos, dia a dia
Para renovar o sentimento
E esquecer todo o lamento
Que a vida reserva ao caminhar.

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E que venha o ENEM!